Terça-feira, Setembro 26, 2006

Do Dondo a Ndalatando


As 6.30, conforme combinado, o Comissário do Serviço de Migração e Estrangeiros, a quem fiquei de dar boleia ate à capital da província para renovar o meu visto de permanência em Angola, não estava no seu gabinete que fica por cima do quartel de bombeiros do Dondo, desci, por isso, as escadas e nisto já estavam na carroçaria da pickup três grades de cerveja eka, “isto não é um táxi” gritei eu, “não, não, estas grades são do comissário para levar para Ndalatando e eu também vou” respondeu prontamente o ajudante do dito Comissário, e já éramos assim quatro, porque levava também comigo um puto que trabalha na obra, entretanto chega o Comissário de mota trazendo mais uma grade de eka’s e o primo que afinal também vai porque precisa de ver o filho que esta no hospital doente, temos lugar para cinco mais as grades de cerveja e um iglu que neste intervalo de tempo já tinha sido colocado em cima da pickup e depois de nos acomodarmos todos, pessoas e mercadoria, arrancamos para a viagem, isto pensava eu porque me diz o Comissário que precisamos ir buscar mais uma encomenda a casa da sua cunhada e lá chegados percebi que a encomenda era a própria cunhada D. Antónia, senhora de grande porte, mais um saco de batatas, duas grades de eka’s e vários sacos de peixe seco com algumas garrafas de óleo de palma, pois também ela tinha que visitar um familiar que estava preso na penitenciária de Ndalatando, tendo, com isto, sobrado para o ajudante do Comissário que teve que ir com o resto da mercadoria na carroçaria da pickup, e iniciamos a viagem que são apenas 70 kms, advérbio mal utilizado porque na realidade é uma viagem de 3 horas em cima de uma estrada que já foi asfaltada e que agora é uma coisa diferente pois a guerra não deixou feridas por sarar só nas pessoas deixou-as também nesta estrada e as crateras ao longo da mesma contrariavam a lei da gravidade a que deveria estar sujeita a viatura, a viatura e as grades de cerveja pois ainda não tinha decorrido tempo suficiente para o silêncio inicial e natural dos passageiros ser sugado para o exterior que nem fumo de cigarro, já o ajudante que ia na carroçaria batia no tejadilho a anunciar baixas nas cervejas, e no meio da amalgama composta por um ajudante do Comissário, um saco de batatas, cacusso seco e óleo de palma lá se encontravam também os cacos de algumas garrafas e o respectivo liquido derramado, tudo polvilhado com uma poeira branca muito fina, parecia um prato de calulú, pelo que houve que reacomodar as cervejas restantes, sentando o ajudante em cima delas na sua renovada função de zelar pela integridade das mesmas e reiniciamos a viagem, episódio este muito útil que serviu para libertar o ambiente assim como as gargalhadas deliciosas que D. Antónia, cunhada do Comissário, soltava enquanto ia contando a historia do Soba de um kimbo perto do Dondo que por ser rapaz novo lhe foi recusado o estatuto de chefe da aldeia e por isso fez um feitiço que consistia em tirar com as próprias mãos as entranhas do avô tendo, quando isso aconteceu, se levantado tamanha ventania que ate as chapas do telhado da fabrica da eka se arrebitaram, e assim prosseguiram viatura e ocupantes, embrenhados na história do jovem Soba, até chegarmos à ponte do rio lucala onde paramos para apreciar a paisagem, eu pelo menos, que os restantes passageiros já fartos deviam estar dela, acontece assim a quem muito tem de alguma coisa sempre se farta por muito bonita que seja, preferindo, por isso focalizarem-se num minúsculo ponto do quadro que não era mais que um Senegalês ilegal com passaporte ilegal e restantes documentos ilegais ate a roupa devia ser ilegal bem como os sapatos decididamente ilegais, razão pela qual o primo do Comissário do SME que não trabalhava no SME mas que tinha um primo que sim, se aproveitou disso mesmo para mandar o pobre Senegalês ilegal que de tão ilegal ate chateava, para cima da pickup pois teria que ir para Ndalatando por vias de ser ilegal e por isso tinha que ser mandado para o seu pais ou algo pior caso não entregasse já ao primo do comissário a comissão, a bendita gasosa, que o Senegalês assustado tirou do bolso dizendo que era todo o dinheiro que tinha, afirmação que não fez mossa no espírito do primo do comissário que guardou o dinheiro e mandou descer da pickup o Senegalês que efectivamente continuou a ser ilegal mas agora com menos cem dólares no bolso. As preocupações das pessoas são sempre relativas e cada um tem os seus problemas e os seus dramas, pensamento comodista enquanto entrava na pickup para prosseguir viagem depois deste incidente que apesar de para mim desprazível faz parte deste pedaço de terra onde aconteceu e desta gente que o viveu e assim sendo a viagem prosseguiu dentro da normalidade pois a D. Antónia continuava a contar as suas historias, intercaladas com as suas gargalhadas deliciosas e toda a gente participava com umas achegas, e foi assim até ao Morro do Binda que é um cabeço difícil de subir não só pela inclinação como também pelo estado da estrada, constatação alias clara pelo número de camiões dispostos ao longo da berma entre os que estão parados e os outros que de tão devagar andam mais parecem parados, todos eles a sofrer do mesmo mal que aquelas velhas que sobem a serra para ir à capela lá no alto e se vão queixando pelo caminho das cruzes, camiões dispersos pelas ladeiras nas mais diversas formas que já não estão ali de passagem mas que passaram a ser parte do morro como aquela história, contou o Comissário, daquele patrão que tinha um camião que avariou na subida pelo que teve que ir em sua ajuda o outro camião que avariou na descida e que por isso ali ficaram os dois levando o patrão a ruína, contava isto o comissário quando passamos por dois senhores que mandam parar o nosso carro e que, vejo eu, estão a descarregar a carga de um camião para o meio da estrada e que dizem “tem avaria” perguntando se podia levar até Ndalatando um deles para pedir ajuda ao patrão para vir buscar a carga que por acaso era de eka’s, sim, respondi e acto contínuo mais um passageiro subiu para a carroçaria levando assim alguma cor à mesma pois naquela altura já não se distinguia o ajudante do Comissário do saco de batatas da D. Antónia tal era a camada espessa de poeira em cima de ambos, e chegamos a Ndalatando, onde a primeira paragem foi o hospital a segunda a prisão a terceira a casa do dono do camião carregado de eka’s que tinha avariado no Morro do Binda, e depois tivemos que percorrer as casas das mulheres do comissário e ajudante distribuindo as respectivas grades de cerveja não sem contabilizar as baixas, que tiveram que ser compensadas pelo pagamento do depósito de vasilhame que as mulheres não deixaram passar em branco, apesar de ser cavalo dado, pois o homem tem que resolver estes pequenos acidentes dos quais as mulheres não têm culpa nenhuma. Por fim paramos na casa do comissário onde preenchi os papéis enquanto reparava, nas paredes, em algumas marcas de rajadas de metralhadora com certeza pois a casa de um comissário é sempre apetecível numa cidade onde a guerra não deu descanso ao fogo das armas.

Terça-feira, Setembro 12, 2006

Cá estou eu…. nas Margens do Cuanza!

Ao fim de um mês e meio em Angola, cá estou eu…. nas Margens do Cuanza!
Na verdade, até agora não me senti com inspiração para escrever... ou não quis escrever!
A inspiração ainda não veio, mas decidi começar mesmo sem ela… estou sem paciência para esperar! Por mais voltas que dê nesta cidade, a pé ou de candongueiro, por mais pessoas com quem fale, por mais coisas que arranje para me entreter... esperar é a palavra que me caí em cima!
Sinto-me como este robôteiro da foto… a aguardar! A aguardar o próximo trabalho! Uma espera que pode demorar ainda mais uma hora, um dia, uma semana ou meses…
Gostava de ter a tranquilidade que ele aparenta!

Segunda-feira, Setembro 11, 2006

Caldeirada


Para os descrentes acerca das nossas pescarias, saibam que esta raia, com cerca de meio metro de diâmetro, apanhada na barra do cuanza, foi parar ao tacho na forma de caldeirada feita pela Su e pelo Paulo Valente.

Quarta-feira, Setembro 06, 2006

Massangano

A estrada para Massangano já foi larga, já foi asfaltada e já teve iluminação pública. Hoje é um carreiro estreito ao longo do qual ainda se podem ver os sinais da largueza de outros tempos.


Da fortaleza de Massangano tem-se uma deslumbrante vista sobre o Kwanza e sobre a ilha onde, segundo o Oficial-Dia João, na sua confusa memória da história, aprendida na quarta classe, existe a “pisada” da Rainha Jinga quando subiu, com Diogo Cão, o rio até ao Dondo.
Não foi exactamente assim, mas a pegada lá existe. Talvez do tempo em que a terrível e temível Rainha se aliou aos Holandeses, no período em que Massangano foi a capital de Angola.

Em 1641, após o período em que Espanha e Portugal se confundiam, os Holandeses, principais inimigos de Espanha e cobiçosos do nosso império, atacaram a colónia Portuguesa. Luanda e Benguela, principais portos por onde saiam os barcos negreiros com escravos para o Brasil, foram capturados. Os Portugueses foram forçados a uma retirada para o interior e
escolheram Massangano onde se fortificaram. Mas os Holandeses não estavam descansados com o poder Português em estado latente e firmaram alianças com povos nativos, nomeadamente com o Rei do Kongo, ávidos de poder negociar com outras potencias europeias e com os quais partiram rio acima com o objectivo de anular a nossa presença. Cercaram Massangano. O corte no fluxo de escravos para o Brasil colocou esta colónia em dificuldades e em 1648, Salvador Correia de Sá recolheu no Brasil fundos para uma expedição com o objectivo de retirar os Holandeses de Angola. A placa colocada na entrada da fortaleza celebra a valentia dos Portugueses que resistiram ao cerco. Os Holandeses capitularam. Mais tarde o Rei do Kongo perdeu definitivamente o domínio do território que hoje é Angola.


A igreja de Massangano, tem no seu exterior, um silêncio premonitório igual aquele que se forma antes dos grandes terramotos. Como se estivesse para acontecer algo de terrível. O interior é vazio. Despido. E tem o ar de aparente abandono. A cobertura deixa passar a chuva e o cheiro a mofo é embriagante. Mas ainda se dizem missas. Com certeza não pelo padre que outrora foi enterrado vivo ali na soleira da porta.